Neste final de semana aconteceu algo que há muito tempo não acontecia, terminei dois livros em um periodo de dois dias, sendo um deles, “A Morte de Ivan Ilitch”, começado e terminado no mesmo dia. Para a minha surpresa, dois casos semelhantes, duas mortes.
Ao contar o contexto das histórias para um amigo meu, eu disse:
“Ambos morrem no final. Não aquela morte de principe, de rei, aquela morte de herói. É a morte do cidadão comum. Não tem tiro, revolta, revolução ou espada, tem o cancer.”
Ivan Iltch via que estava morrendo, e estava em constante desespero. No fundo da alma, sabia que estava morrendo, mas não só não estava acostumado a isso como simplesmente não entendia, não conseguia entender.
O exemplo de silogismo que estudara na lógica de Kiesewetter: Caio é humano; os humanos são mortais. Logo, Caio é mortal. Por toda a vida lhe pareceria correto apenas em relação a Caio, mas de forma nenhuma em relação a ele. Havia aquele Caio, um humano em geral, e isso estava absolutamente correto; mas ele não era Caio, e não era um humano em geral e sempre fora um ser absolutamente, absolutamente especial em relação a todos aqueles outros; ele era o Vânia da mamãe, do papai, de Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a babá, depois Kátenka, com todas as alegrias, as dores, as tristezas, os êxtases da infância, mocidade, juventude. Por acaso Caio sentira o cheiro daquela bolinha listrada de couro que Vânia tanto amava? Por acaso Caio beijava a mão da mãe daquela maneira e por acaso Caio fazia farfhalar daquela maneira a seda dos babados do vestido da mãe? Por acaso ele se rebelava por causa dos salgadinhos na Escola de Direito? Por acaso Caio estivera tão apaixonado? Por acaso Caio conseguia conduzir uma audiência daquela maneira?
E Caio é de fato mortal, é certo que ele morra, mas eu, Vânia, Ivan Iltch, com todos os meus sentimentos, pensamentos — comigo já é outra coisa. E não pode ser que eu tenha que morrer. Isso seria terrível demais.
Ivan Ilitch e José Maria (lições de abismo) não eram Caio ou Socrates. Eu não sou Caio, você não é Socrates.
Como pode uma obra russa e uma brasileira conversarem tanto entre si. O segredo está no silogismo, tem de estar, ele é universal. Caio é mortal aqui, no japão, na Russia ou na Islândia. Caio é humano, você é humano. Ai está a participação universal dessas obras. Todos morremos.
Por acaso Vania sentiu a solidão de José Maria quando Eunice deixou-o? José Maria tinha a eloquência que tinha Vania ao falar nas audiências? Para José Maria, Vania é Caio, para Vania, José Maria é Caio.
Será esse o grande mal da humanidade? Enxergar a todos como Caios? O padeiro é Caio? O engraxate é Caio?
Eu sou Caio, afinal de contas? É isso que se resume?
Poderia ser, se ao final de ambos os livros não chegasse Aquele que a todos traz sentido. O fim ultimo do homem, que transforma o Caio em Vania, no pequeno Vania, no Vania de Mamãe e Papai. O Verbo. O Verbo que é Filho do carpinteiro, que é filho de Maria.
“Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?”
É ele que nos tira de Caio, sem o Cristo o homem é Caio.
“Quando o padre veio e tomou a sua confissão, Ivan Ilitch se abrandou, sentiu certo alívio de suas dúvidas e, em consequência disso, do sofrimento, e foi acometido por um momento de esperança. De novo começou a pensar no ceco e na possibilidade de recuperá-lo. Comungou com lágrimas nos olhos.”
A morte do cidadão comum, assim como mandei para meu amigo, já não é mais a morte de Caio, é a morte do único.
A vida comum foi santificada na carpintária de São José.
São José não é Caio, é a boa morte.
Caio Morre, José descansa.
Portanto, se em Cristo o homem não é mais Caio, a morte ganha outro sentido. Se para Caio, a morte é o fim, o nada, o vazio, para José Maria a morte é o encontro, a resposta, o lucro.
Que importa? Tudo é graça


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