Flor do Café: Epopeia de Londrina – Lucas Torresin

Filho de sua terra fui criado,
em teu chão homem me formei;
o teu mito, nunca dantes revelado,
em meu peito eu resguardei.
Peço a Deus, meu Bem-Amado,
para quem, com a justiça, não faltarei,
que me auxilie nessa história,
e sobre tu possas cantar a glória.

Muito me dói que, sobre tuas façanhas,
eu – simples marceneiro – deva narrar.
Dos poetas e rapsodos não tenho as manhas,
com as palavras nunca fui tão familiar,
mas do teu passado me brotam linhas
que espero que alguém possa se enamorar
de tua jovialidade e alma de menina sincera.
Canto agora sobre ti, minha querida terra.

Nascestes ao desabrochar da primeira flor do café,
muito longe de sua atual morada.
Pelas mãos daqueles que têm a mesma fé,
fostes pela primeira vez carregada.
Kaldi, o pastor etíope, foi quem te viu de pé,
e, em troca, teve a alma despertada.
Dormiste séculos em solo cristão,
até seres levada à terra do mouro pagão

Te chamam de arábica, ainda que teu coração ali nunca esteve.
Tal qual Zoraida, cantada por Cervantes, que em Maria foi convertida,
que, na terra mourisca, viu os prisioneiros e se deteve,
pelo exemplo dos cristãos sofredores teve sua alma consumida,
e nova fé, em seu coração, se descreve.
Tu, nas noites árabes, também sonhavas tua partida.
Por insolência dos mouros, estava próxima
a tua tão sonhada cruzada anônima.

Fostes levada a Viena, ó minha doce menina,
junta daqueles mouros fostes obrigada a lutar.
Seus dias de prisioneira estavam em ruína,
em pouco tempo, junto dos cristãos iria estar.
Os mouros, inebriados pela tua cafeína,
contra os cristãos se puseram a pelear.
O Sacro Império Romano-Germânico pôs o mouro a correr;
correu tanto que, para trás, te deixou para perecer.

Fostes encontrada pelo soldado cristão;
pelo cuidado de Marco de Aviano, ganhou nova face;
na Europa, tuas glórias passaram de mão em mão,
e, nas navegações, ganhastes um passe.
Navegaste rumo ao Novo Mundo. Dentro de uma embarcação,
chegastes com a promessa de que aqui tu descansasses.
Longe das guerras do Velho Continente, à nova terra rumou;
encontrastes aqui o solo fértil que o Evangelho narrou.

Muitos anos adormecida, em um sono repaginador,
no começo dos anos 30, encontrou finalmente a paixão.
Casou-se com a terra vermelha e foi morar no interior.
Coroada como rainha, começou a celebração.
Revestida de puro branco, teve o rei a bela flor.
Como é sabido de todo aquele que é bom cristão:
“Assim, já não são dois, mas uma só carne.”
Dessa união, a região se encheu de charme.

Charme próprio da etíopiana menina,
que, rainha em sua longa vida, se fez,
casada com rei de cor bravina,
em um novo palácio reina com altivez.
Reino assentado em terra palotina,
que carrega a fé arraigada em sua tez.
O fruto desta união é chamada Londrina,
terra que sempre será lembrança viva do que Deus fez.

Me desculpe se, ao contar a história, fui pouco educado.
São os modos, um tanto abarbarados, de simples marceneiro;
mas só de cantar seus feitos posso ir descansar mais sossegado,
e levar, ao pensar na minha terra, um sorriso faceiro.
Cantei aquilo que em meu peito vinha carregado.
Volto agora para a minha vida, de coração estreleiro,
ao saber que, sobre suas façanhas, eu aventei,
e, eternizado naqueles que te amam, eu deixei.

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