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Tradução: Clístenes Hafner Fernandes
1. A Humildade é necessária a quem quer aprender
O princípio do aprendizado é a humildade, e muita coisa tem sido escrita sobre ela. Há três coisas endereçadas ao estudante. Primeira: não tenhas como vil nenhuma ciência e nada que tenha sido escrito; segunda: não teenvergonhes de aprender com qualquer pessoa; terceira: quando possuíres ciência, não desprezes quem não a tem. Há muitos que erram por precocemente quererem parecer sábios e por isto têm vergonha de aprender o que não sabem com os outros. Tu,meu filho, aprende com boa vontade de todos tudo aquilo que não sabes. Serás assim o mais sábio de todos, se buscares aprender de todos. Não tenhas por vil a nenhuma ciência, porque toda ciência é boa. Não desprezes nada do que já foi escrito, ou, pelo menos, nenhuma lei que estiver à disposição. Se não ganhares nada com isso, pelo menos não perderás nada. Diz o Apóstolo: “Omnia legentes, quae bona sunt tenentes”. (I Tess. V. XXI)
O bom leitor deve ser humilde e manso, de todo alheio às preocupações mundanas e às tentações do prazer, e dedicado a aprender de todos com boa vontade. Não tenhas tua ciência em alta conta; não queiras parecer erudito, mas sê erudito de fato. Conhece as sentenças dos sábios, e procura ter sempre os seus exemplos diante dos olhos da mente, como em um espelho.
2. Três coisas necessárias a quem estuda
Três coisas são necessárias ao estudante: a natureza, o exercício e a disciplina. É preciso que, por sua natureza, ele perceba facilmente o que ouviu e retenha definitivamente o que percebeu. É preciso que, pelo exercício, cultive a tendência natural ao trabalho diligente. É preciso que, pela disciplina, viva de forma louvável, e ajunte os costumes à ciência.
3. Ter em alta conta o engenho e a memória
Quem se dedica aos estudos deve primar pelo engenho e pela memória ao mesmo tempo, pois eles estão unidos entre si em todo estudo, de maneira que se um faltar, o outro não levará ninguém à perfeição, da mesma forma como ninguém aproveita suas riquezas se não houver quem as guarde; e de nada adianta construir cofres quando não se tem o que neles guardar.
4. O engenho é uma força naturalmente presente na alma que vale por si só. A memória é a percepção mais firme, por parte da alma ou da mente, das coisas, das palavras, das frases e dos significados. O que o engenho descobre, a memória guarda. O engenho vem da natureza, é auxiliado pela prática, é estafado pelo trabalho sem moderação e aprimorado pelo exercício com moderação. O exercício de memorizar e de meditar continuamente é o melhor auxílio e o que dá mais segurança à memória. Há duas coisas que exercitam o engenho: a leitura e a meditação.
Mediante as regras e os preceitos da leitura, somos educados pelascoisas escritas. A leitura é também uma investigação do sentido por uma alma disciplinada. Há três gêneros de leitura: a leitura daquele que ensina, a daquele que aprende e a daquele que estuda por si mesmo. É por isso que dizemos “Leio o livro ao aluno”, “leio o livro a partir do professor”, ou simplesmente “leio o livro”.
5. Sobre a meditação
Meditar é pensar frequentemente nas idéias e investigar com prudência as causas e as origens, o modo e a utilidade de cada uma das coisas. O princípio da meditação é a leitura. Mas a meditação não é realizada pelas regras ou preceitos da leitura. Na meditação, apraz-nos discorrer por um tipo de espaço aberto, no qual focamos na verdade para contemplá-la, admirando ora uma, ora outra daquelas causas, e penetramos no que nelas há de mais profundo buscando não deixar espaço para a dúvida ou para a obscuridade.
Portanto, o princípio do conhecimento está na leitura e o seu fim é a meditação. Quem amar intimamente a meditação e se dedicar a ela com frequência, terá uma vida muito agradável e na tribulação receberá maiores consolações. A meditação, mais do que qualquer outra coisa, é o que mais afasta a alma do barulho dos atos terrenos; por sua doce tranquilidade já nos oferece de algum modo um gosto antecipado da eterna ainda nesta vida terrena; faz-nos buscar e entender o criador a partir das criaturas, ensina a alma pela ciência e aumenta a alegria, faz com que encontremos o maior de todos os deleites.
6. Os três gêneros de meditação
Há três gêneros de meditação. O primeiro é exame dos costumes, osegundo é a indagação dos mandamentos, o terceiro é a investigação da criação. Quanto aos costumes a meditação discerne os vícios e as virtudes. Quanto aos mandamentos de Deus, vê-se os que são preceitos, os que são prometem, os que admoestam. Quanto às obras de Deus, vê-se as obras criadas pelo poder divino, as obras da sabedoria divina, as obras operadas pela graça. Mais conhecerá estas obras quanto mais dignas de admiração elas forem e quanto maior for o hábito atento de meditar as maravilhas de Deus.
7. Guardar na memória aquilo que se aprende
A memória recolhe e guarda tudo o que o engenho busca e encontra. É importante que as coisas que divisamos quando aprendemos sejam entregues à memória. Entregar à memória é resumir em uma breve suma tudo aquilo que foi lido e meditado de forma mais ampla; aquilo que os antigos chamavam de epílogo, ou seja, uma recapitulação suscinta do que foi dito.
Apraz-se a memória humana com a brevidade, e quando é divida em muitas partes, ela se torna menor em cada uma delas. É por isso que devemos, em todos os estudos, entregar à memória de forma breve tudo aquilo que for certo; devemos guardar na arca da memória para que, se necessário, possamos dali retirar. Também é necessário revirar as coisas que estão na memória com frequência e chamá-las à consciência para que não fiquem obsoletas pela longa espera.
8. Três visões da alma racional. Diferença entre a meditação e a contemplação
Na alma racional há três visões: o pensamento, a meditação e a contemplação.
O pensamento é quando a noção de algo toca a mente de forma transitória; é quando a coisa em si se apresenta à alma através de sua imagem, tanto ao entrar pelos sentidos, quanto ao brotar da memória.
A meditação é reconduzir frequentemente o pensamento ao nos esforçarmos para explicar algo obscuro ou buscarmos penetrar no que há de oculto.
A contemplação é a visão minuciosa que a alma pode ter quando está livre da dispersão.
A diferença relevante entre a meditação e a contemplação é que a meditação sempre trata das coisas ocultadas ao nosso entendimento. E a contemplação é sempre sobre as coisas que se manifestam segundo a sua natureza ou segundo a nossa capacidade. Também a meditação busca alguma coisa única, enquanto que a contemplação se amplia na compreensão de muitas coisas ou de todas as coisas.
Sendo assim, a meditação é quando a mente vaga com curiosidade, uma busca sagaz do que é obscuro, um desatar do que é embaraçado. A contemplação é uma vivacidade da inteligência que abarca todas as coisas numa visão plenamente manifestada, de tal forma que o que a meditação busca, a contemplação possui.
9. Os dois gêneros de contemplação
Mas há dois gêneros de contemplação
O primeiro pertence aos principiantes que consideram as criaturas. O segundo e o último pertence aos perfeitos, que contemplam o Criador.
No livro dos Provérbios, Salomão começa meditando; no Eclesiastes ergue-se ao primeiro grau da contemplação; e, por fim, no Cântico dos Cânticos, transporta-se ao grau supremo.
Para que possamos distinguir estas três coisas com seus nomes adequados, diremos que a primeira é meditação; a segunda, especulação; a terceira, contemplação.
Na meditação a perturbação das paixões carnais surge para obscurecer a mente inflamada de piedosa devoção; na especulação a novidade da insólita visão a levanta à admiração; na contemplação o gosto de uma extraordinária doçura a transforma toda em alegria e contentamento. Portanto, na meditação temos solicitude; na especulação, admiração; na contemplação, doçura.
10. As três partes da exposição
A exposição contém três partes: a letra, o sentido e a sentença. A letra é a correta ordenação das palavras e que chamamos também de construção. O sentido é um delineamento simples e adequado que a letra tem diante de si como uma primeira impressão. A sentença é uma inteligência mais profunda que não pode ser encontrada a não ser pela exposição ou interpretação. Para que uma exposição se torne perfeita, precisa-se primeiramente da letra, depois do sentido e por último da sentença.
11. Os três gêneros de vaidades
Há três gêneros de vaidades. O primeiro é a vaidade da mutabilidade, que está em todas as coisas perecíveis por sua própria condição. O segundo é a vaidade da curiosidade ou da cobiça, que está na mente dos homens por um amor desordenado às coisas transitórias e vãs. O terceiro é a vaidade da mortalidade, que está nos corpos humanos por suas penas.
12. As obrigações da eloquência
Agostinho, famoso por sua eloquência, disse com propriedade que o homem eloquente deve aprender a falar de tal modo que ensine, que deleite e que persuada. A isto acrescentou que é necessário o ensinar, que é suave o deleitar, e que é vitorioso o persuadir.
Dentre estas três coisas, a primeira — ou seja, o ensino necessário — é constituída por aquilo que dizemos e as demais pelo modo como dizemos. Sendo assim, quem se esforça em persuadir o que é bom quando fala, não pode desprezar nenhum destes aspectos: ensinar, deleitar e submeter, rezando e agindo para que seja ouvido pelas inteligências dos homens obedientes e de boa vontade.
Quando estiver ciente disto, mesmo que o ouvinte não o siga, se o fizer de forma apropriada e conveniente, será dito eloquente por seu mérito. O próprio Agostinho quis que pertencessem outras três coisas à educação, ao prazer e à submissão quando disse algo parecido: “É eloquente quem pode dizer coisas simples humildemente, coisas moderadas moderadamente e coisas grandes elevadamente”.
Sendo assim, quem quiser saber e ensinar deve aprender tudo o que deve ser ensinado e adquirir a capacidade de dizer tudo como convém a um homem de Igreja. Por outro lado, quem quiser ensinar e por vezes não se faz entender, não deve julgar ter dito aquilo que queria, porque mesmo que quem disse o tenha entendido, não será assim considerado por quem quis ensinar. Mas se for entendido, independente da forma com que tenha dito, o disse.
Deve, portanto, o doutor das divinas Escrituras ser um defensor da verdadeira fé, lutar contra os erros, e ensinar o bem. Neste trabalho, deve pregar, e conciliar as coisas adversas, para levantar os indolentes e ensinar os ignorantes sobre como devem agir e o que esperar. Onde encontrar ou ele próprio formar homens de boa vontade, diligentes e dóceis, deve completar todo o resto de acordo com o que a causa exija. Para ensinar os ouvintes, deve utilizar-se da narração. Mas, se a matéria de que trata precisar ser claramente conhecida, para que as coisas duvidosas passem a ser certas, é importante raciocinar a partir dos documentos utilizados.
E Cícero diz: A memória é onde guardamos tudo o que há de mais valioso; é um guardião que é usado para as coisas e palavras que pensamos e descobrimos. Assim entendemos tudo, mesmo que a decadência no orador seja evidente. Não temos outros preceitos a não ser e exercitar-se em aprender, vontade de pensar, e evitar o que nos inebria e que é tão nocivo aos bons estudos e a integridade da mente.


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