A Vida Intelectual: seu Espírito, Suas Condições, Seus Métodos – Comentários sobre a obra.

Os comentários a seguir foram retirados de duas aulas minhas que estão disponíveis no YouTube. O link para elas será anexado ao final.

1 – A vocação Intelectual

I – O Intelectual é um consagrado

Ao ler as páginas do primeiro capítulo diversas vezes me veio à cabeça uma frase muito marcante de um grande santo.

Se tens de servir a Deus com tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave – São Josemaria Escrivá.

Estas palavras deste grande santo da Igreja, nos fazem compreender aquilo que Sertillanges procura nos dizer quando fala que somos “Consagrados”:

Tal orientação deve ser precedida de maduro e longo exame. A vocação intelectual é como as demais vocações: está inscrita nos nossos instintos, nas nossas capacidades, em um não sei que entusiasmo interior sujeito ao exame da razão. As nossas disposições são como as propriedades químicas que determinam, para cada corpo, as combinações em que pode entrar. Não é coisa que se dê. Vem do céu e da natureza primeira. O ponto está em ser dócil a Deus e a si próprio, depois de ter escutado estas duas vozes.

Assim como as outras demais vocações, a sacerdotal por exemplo, somos chamados por Deus ao serviço. Somos chamados à servir o reino de Deus seguindo a nossa vocação.

São Maximiliano Maria Kolbe disse:

Deus chamou ao convento aqueles que não se salvariam se continuassem no mundo

Essa realidade da vocação como seu caminho ideal para a salvação também está presente na vocação intelectual. Sertillanges diz o seguinte:

Todos os caminhos, excepto um, são maus para vós, visto que todos se apartam da direcção onde se espera e se requer a vossa acção. Não sejais infiel a Deus, nem a vossos irmãos, nem a vós próprios, rejeitando um apelo sagrado.

Quanto da nossa tristeza moderna não é fruto de uma vocação não correspondida? De uma vocação que carece do aprofundamento necessário para se realizar plenamente?

Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos.

O que digo aplica-se a todos, de um modo especial aos que só sabem dispor de uma parte da vida, da mais fraca, para se entregarem aos trabalhos da inteligência. Mais do que os outros, devem estes ser consagrados. Terão de amontoar, em reduzido espaço, o que lhes não é dado distribuir em vasta extensão. O ascetismo especial e a virtude heroica do trabalhador intelectual deverão ser, para eles, o pão de cada dia. Se, porém, consentirem nesta dupla oferta de si próprios, não desanimem.

Muitos de nós que lemos esse livro possuímos apenas a menor parte de nosso dia para nos deter aos exercícios da Vida Intelectual, mas é a nós que Sertillanges admoesta para prosseguirmos, dizendo:

O querer vale mais do que tudo: querer ser alguém; chegar a ser alguma coisa; ser já, pelo desejo, esse alguém qualificado pelo ideal. O resto sempre se alcança. Livros, há-os em toda a parte; além disso, poucos bastam. Relações, estímulos, encontramo-los em espírito na solidão: os grandes seres estão lá, presentes a quem os invoca, e por detrás do pensador ardente erguem-se os grandes séculos. Os que têm a facilidade de assistir a cursos, ou os não seguem ou os seguem mal, se, em caso de necessidade, não tiverem em si recursos para deles prescindirem. Quanto ao público, por vezes anima-vos, ordinariamente perturba-vos e dispersa-vos. Não vos arrisqueis a perder uma fortuna por uma colher de mel coado. Mais vale a solidão apaixonada, onde qualquer semente rende cem por um e um simples raio de sol doura os frutos do outono.

Aprenda a administrar esse pouco tempo; mergulha todos os dias de sua vida na fonte que sacia e torna a dar sede.

II – O Intelectual não é um isolado

“Amai o mundo apaixonadamente” – São Josemaria Escrivá

Este trecho pertence a uma homilia de São Josemaria Escrivá, e eu gostaria de redigi-lo um trecho dele aqui para nós.

…Amo os religiosos, e venero e admito suas clausuras, seus apostolados, seu afastamento do mundo – seu contemptus mundi –, que são outros sinais de santidade na igreja. Mas o Senhor não me deu vocação religiosa, e desejá-la para mim seria uma desordem. Nenhuma autoridade na terra poderá me obrigar a ser religioso, assim como nenhuma autoridade pode forçar-me a contrair matrimônio. Sou sacerdote secular: sacerdote de Jesus Cristo, que ama o mundo apaixonadamente…

Não sei quem é você, leitor de meu blog, mas a grande maioria de nós não é vocacionada a sermos religiosos ou sacerdotes, somos leigos, e, no entanto, temos um chamado bem semelhante ao de São Josemaria, que era sacerdote: o de amar o mundo apaixonadamente. Nos diz Sertillanges:

Toda verdade é prática; o mais aparentemente abstrato, o mais alto, também é o mais prático. Toda verdade é vida, direção, um caminho que leva ao fim do homem. E, portanto, Jesus Cristo fez esta afirmação única: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Trabalhe sempre então com a ideia de alguma utilização, como o Evangelho fala. Ouça o murmúrio da raça humana sobre você; escolha certos indivíduos de certos grupos cuja necessidade você conhece, descubra o que pode tirá-los de sua noite e enobrecê-los; o que em qualquer medida pode salvá-los. As únicas verdades sagradas são as verdades redentoras; e foi não é em vista do nosso trabalho como de tudo o que o apóstolo disse: “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação?”

Nos diz o Evangelho:

13.“Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens.

14.Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situa­da sobre uma montanha

15.nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa.

16.Assim, brilhe vossa luz dian­te dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.”

É necessário que sejamos sal para o mundo, vivendo entre os nossos — no trabalho, na faculdade, na paróquia, etc. — levando-os a conhecer e sendo testemunhas da verdade.

III – O Intelectual pertence ao seu tempo

Eis-me aqui, homem do século XX, contemporâneo dum drama permanente, testemunha de confusões como porventura o mundo nunca presenciou desde que os montes surgiram e os mares foram atirados para seus antros. Que fazer por este século arquejante? Mais do que nunca, o pensamento espera pelos homens e os homens pelo pensamento. O mundo corre perigo por falta de máximas de vida. Encontramo-nos num trem que desfila a toda a velocidade, e não há sinalização, nem condutor. O planeta não sabe para onde vai, a sua lei abandona-o: quem lhe restituirá o seu sol? – Sertillanges

Somos homens chamados ao nosso tempo! Sertillanges diz: ‘O planeta não sabe para onde vai’. Nós sabemos para onde ele vai, estamos em seu trajeto e sentimos na pele os resultados de ambas as guerras, da revolução sexual, da Guerra Fria, do consumismo, do socialismo, etc. Assim como Sertillanges viveu um drama que nunca antes havia sido visto, nós também vivemos o nosso. O que ele fez? Cruzou os braços e viveu em um saudosismo de uma era passada da Europa, ou viveu conforme a divina Providência escolheu para ele, como homem de seu tempo? Somos chamados a ser luz hoje e agora, e somos colocados no melhor tempo para nossa salvação. A divina Providência não erra e escolhe o tempo ideal para que sejamos santos.

Se pensarmos na vida de Santo Agostinho e meditarmos sobre o período em que viveu este que é um dos maiores santos da Igreja, veremos como ele presenciou momentos decisivos. Agostinho nasceu e viveu nos últimos anos de Roma e viu a queda daquela que parecia o auge da sociedade, o auge da civilização. Durante parte de sua vida, foi levado pelo seu entorno a viver longe da Verdade, caindo em grupos heréticos e entregue aos prazeres da carne. Mas, em um momento, por uma graça extraordinária, Agostinho contemplou aquela verdade que atravessa os séculos dos séculos e disse:

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz…

Devemos compreender que nenhum mal é permitido sem que Deus dele tire um bem infinitamente maior. Sejamos dóceis à divina Providência e aceitemos o nosso tempo. Façamos dele, na medida do possível, um lugar melhor. Como partes do Corpo de Cristo, levemos todos os nossos irmãos conosco para que, um dia, estejamos na glória que não cessa.

2 – As virtudes de um intelectual cristão

I – As Virtudes Comuns

A vida é uma unidade: seria muito surpreendente que se pudesse trabalhar plenamente em uma função neglicenciando outra, e que viver as idéias não nos ajudasse a percebê-las. De onde provém essa unidade da vida? Do amor. “Dize-me o que amas, e eu te direi o que és”. O amor é o começo de tudo em nós, e esse ponto de partida comum do conhecimento e da prática não pode deixar de tornar solidários, em certa medida, os retos caminhos de um e da outra. A verdade aproxima-se dos que a amam, dos que a acolhem, e esse amor não existe sem virtude. Por isso,apesar de suas possíveis taras, o gênio envolvido em seu trabalho já é virtuoso; para chegar à santidade, bastaria quefosse mais plenamente ele mesmo. O verdadeiro brota no mesmo terreno que o bem; suas raízes comunicam-se. Separados dessa raiz comum, e por isso menos arraigados em seu terreno, ambos sofrem, a alma definha ou o espírito desfalece. Ao contrário, alimentando o verdadeiro esclarecemos a consciência; fomentando o bem, orientamos o saber.

Lendo este trecho me veio a cabeça aquela passagem de I Coríntios 13.

1- Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

2-Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e co­nhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.

Sendo o amor a virtude comum ao intelectual cristão, guiados por esse amor nós tendemos a seguir as virtudes e fugir dos vícios descritos pelo autor:

Continuai a analisar. Quais são os inimigos do saber? Evidentemente a ininteligência: e, por isso, o que dizemos dos vícios, das virtudes e do seu papel na ciência, pressupõe sujeitos no restante iguais. Mas, à parte a loucura, que inimigos temeis? Não pensais na preguiça, sepulcro dos melhores dons? Na sensualidade, que enfraquece e prostra o corpo, enegrece a imaginação, embota a inteligência, dissipa a memória? No orgulho, que ora deslumbra ora entenebrece, que nos arrasta para o nosso próprio senso a ponto de nos fazer perder o senso universal? Na inveja que recusa obstinadamente uma claridade vizinha? Na irritação que rejeita as críticas e se apega ao erro? Livre destes obstáculos, o homem de estudo elevar-se-á mais ou menos, segundo as suas posses e o ambiente em que vive, mas alcançará o nível do seu próprio gênio, do seu próprio destino. Todas as taras mencionadas estão mais ou menos ligadas umas às outras; cortam-se, ramificam-se, e todas são para o amor do bem ou para o seu desprezo o que para a nascente são os fios de água que se entrecortam. A pureza do pensamento exige a pureza da alma: eis uma verdade geral inconcussa. Oxalá o neófito da ciência se impregne dela.

Quando o homem intelectual se desprende desses vícios ele pode adentrar na virtude própria ao intelectual, a estudiosidade.

II – A Virtude Própria do Intelectual

Eis aqui a virtude que dá nome a todo este site: Studiositas.

A virtude da estudiosidade regula na alma humana o desejo de aprender e conhecer. Ela se opõe ao vício da curiosidade, que é um desejo desordenado de conhecer ou saber o que não é da nossa conta ou  algo que seja para nós ocasião de pecado. São Tomás submetia a estudiosidade à temperança moderadora, para indicar que o saber é em si mesmo sempre bem-vindo, mas que a constituição da vida pedenos temperar, ou seja, adaptar às circunstâncias e relacionar aos outros deveres um apetite de conhecer que facilmente torna-se excessivo. Quando falo em excesso, entendo-o em dois sentidos. No reino da estudiosidade, dois vícios se opõem: a negligência, por um lado; a curiosidade vã, por outro.

A estudiosidade deve ser sempre anexada a virtude da temperança, pois caso contrário criaria casos como os seguintes:

Há outros deveres humanos além do estudo. O conhecimento tomado como um absoluto é sem dúvida nosso bem supremo; mas o que experimentamos aqui está muitas vezes subordinado a outros valores que lhe serão equivalentes sob os auspícios do mérito. Um pároco de aldeia que se dedica a seus paroquianos, um médico que negligencia a ciência para prestar socorros urgentes, um filho que exerce um ofício para ajudar sua família e renuncia assim a uma ampla cultura não profanam de maneira alguma seu gênio interior; prestam homenagem a esse Verdadeiro que é, com o Bem, um só e mesmo Ser. Se agissem de outra forma, ofenderiam tanto a verdade quanto a virtude, pois, por um desvio, colocariam a Verdade viva contra si mesma.

Seria justo que um pároco, um médico ou um filho, que têm o dever de prestar auxílio aos seus, se trancassem em um quarto para se dedicar exclusivamente à vida intelectual? Isso não seria contrário à razão e, consequentemente, também ao justo?

A virtude da estudiosidade deve estar sempre vinculada à temperança, para que não caia nem no extremismo nem no laxismo.

III – O espírito de Oração.

“Para um apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração.”-São Josemaria Escrivá

Todo estudo deve estar submetido a uma ordem, a mesma que Sertillanges comenta:

Ora, acima de todas as dependências, há a Dependência primeira; no seio de todas as relações, a suprema Relação; no topo das comunicações, a Fonte; sob as trocas, o Dom; sob a sístole e a diástole do mundo, o Coração, o imenso Coração do Ser. Não deve o espírito referir-se constantemente a ele e não perder por um minuto sequer o contato com aquele que é o tudo de todas as coisas e por conseguinte de toda ciência? A inteligência desempenha plenamente seu papel exercendo uma função religiosa, quer dizer, prestando um culto à verdade suprema através da verdade reduzida e dispersa. Cada verdade é um fragmento que exibe em todos os seus aspectos suas ligações; a Verdade em si mesma é uma, e a Verdade é Deus.

Não seria esse o grande problema das filosofias e ciências modernas? Nos próximos meses, darei uma aula sobre o livro A Última Superstição uma refutação do neo ateismo, de Edward Feser, no qual o filósofo neotomista comenta sobre as ciências modernas e seu desprendimento das causas aristotélicas.”

Uma das quatro causas aristotélicas é a causa final.

A direção que as coisas tomam corresponde à sua causa final, e isso pode ser observado na própria natureza. Todos os movimentos ocorrem sempre, ou na maioria das vezes, do mesmo modo.

  • O fogo sempre aquece; sua causa final é aquecer, pois isso lhe é próprio.
  • A pedra sempre cai.
  • O botão da rosa sempre desabrocha.
  • O sol sempre ilumina.

Comentando a física aristotélica, São Tomás de Aquino afirma:

“Todo agente age em vista de um fim, seja pela natureza ou pelo intelecto.”

E qual seria a causa final do homem, senão a contemplação da Verdade, que é o próprio Deus?

Para obter esse espírito de oração na ciência, aliás, não é necessário entregar-se a nenhum misterioso encantamento. Não se requer nenhuma força extrínseca. Sem dúvida, a invocação de Deus e sua intervenção especial têm seu lugar aqui. São Tomás sempre rezava antes de ditar ou pregar; compôs nessa intenção uma oração admirável: o filho da ciência que balbucia busca naturalmente a palavra que lhe falta no olhar divino. Mas na própria ciência, na ciência cristã, encontramos o escabelo que, elevando-nos para Deus, permite-nos retornar ao estudo com uma alma mais iluminada e como que com os dons do profeta.

Parte IV – A disciplina do corpo

“Mens sana in corpore sano”

Como já dissemos, a doutrina do composto humano opõe-se à dissociação das funções espirituais e das funções corporais, ainda as mais estranhas ao pensamento puro. Santo Tomás subscreve este pensamento irônico de Aristóteles: “É tão ridículo dizer: só a alma compreende, como dizer: só ela constrói ou tece”;13 e sustenta estas proposições na aparência materialista: “As diversas disposições dos homens nas obras da alma dependem das diversas disposições de seus corpos”.14 “À boa compleição do corpo corresponde a nobreza da alma”.15

continua o autor em outra parte

Esta doutrina, que o Santo Doutor desenvolve a cada passo, tão essencial e providencialmente moderna, deve gerar a convição de que para pensar, sobretudo para pensar com ardor e sabedoria durante uma vida inteira, é indispensável sujeitar ao pensamento não só a alma e as suas diversas potências, mas também o corpo e todas as suas funções orgânicas? Tudo, num intelectual, deve ser intelectual. O complexo físico e mental, a substância homem estão ao serviço desta vida especial que por certos aspectos parece tão pouco humana: não lhe ponham embargos! Tornemo-nos harmonia, que dê em resultado a conquista da verdade.

Neste capítulo, Sertillanges oferece ótimas dicas sobre como intercalar a vida intelectual com práticas essenciais para a preservação da saúde.

  • Cuide da alimentação, para que a vida não se transforme em uma sucessão de digestões.
  • Cuide do sono, para que não seja nem excessivo nem insuficiente. Em demasia, ele embrutece, entorpece, espessa o sangue e turva o pensamento. Em falta, expõe o indivíduo a prolongar perigosamente as excitações do trabalho.
  • Passe o máximo de tempo possível ao ar livre. A atenção está intimamente relacionada à respiração. Caminhe antes e depois do trabalho ou até mesmo durante, como faziam os gregos.

Além desses, o capítulo traz outros conselhos valiosos para equilibrar o estudo e a saúde.

Quem é preguiçoso, guloso, escravo do travesseiro e da mesa, quem abusa do vinho, do álcool, do tabaco, quem se compraz em excitações malsãs, em hábitos que a um tempo debilitam e enervam, em pecados talvez perdoados periodicamente, mas cujos efeitos permanecem, como praticará a higiene que vimos ser necessária? O amigo do prazer é inimigo do seu corpo e depressa se torna inimigo da sua alma. A mortificação dos sentidos é requerida para o pensamento e só ela nos pode colocar naquele estado clarividente de que falava Gratry. Se obedecerdes à carne, estais em caminho de ser carne, quando deveríeis ser todo espírito.

São Josemaria Escrivá fala algo semelhante em caminho:

O manjar mais delicado e seleto, se o comer um porco (que assim se chama, sem perdão da palavra), converte-se, quando muito, em carne de porco!

Sejamos anjos, para dignificar as idéias ao assimilá-las. – Pelo menos, sejamos homens, para converter os alimentos, no mínimo, em músculos nobres e belos, ou talvez em cérebro potente…, capaz de entender e adorar a Deus.

  • Mas… não sejamos animais, como tantos e tantos!

3 – A organização da vida

I – Simplificar.

“Os grandes homens  dormem em camas pequenas”

O que é a Simplificação para Sertillanges?

Muita paz, um pouco de bom gosto, algumas comodidades que sirvam de poupar o tempo, é quanto basta. Reduzi o teor de vida. Recepções, saídas que arrastam novas obrigações, cerimônias de vizinhança, todo esse ritual complicado de uma vida artificial que tantos mundanos amaldiçoam em segredo, não são coisas próprias dum trabalhador. A vida mundana é fatal para a ciência.

Nós que somos vocacionados a vida de família, que tenhamos em nosso par um descanso e o conforto necessário para retomarmos o trabalho.

Se o homem casado está “dividido” de algum modo, que esteja também duplicado. Deu-lhe Deus uma auxiliar semelhante a si: que ela se não torne outra. As divisões ocasionadas pela incompreensão da alma irmã são fatais à produção; introduzem no espírito uma inquietação que o corrói; não lhe fica ardor nem alegria, e como é que a ave voaria sem asas, a ave e a alma sem o seu canto?

II – Guardar a solidão

“As grandes obras foram preparadas no deserto, até mesmo a redenção do mundo.”

Para o intelectual, momentos de solidão são extremamente necessários, pois é nela que ele pode reconhecer em si próprio a revelação. Como disse Santo Agostinho:

“Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei!Eis que habitavas dentro de mim, e eu te procurava do lado de fora!”

É essa mesma realidade que Sertillanges nos convida a refletir ao citar A Imitação de Cristo:

“Sempre que fui ter com os homens, voltei de lá menos homem.”

Agora, imaginemos como nossa vocação intelectual não é ainda mais afetada em um mundo repleto de tecnologias que nos impedem de ficar sequer um segundo a sós!

III – Cooperação com seus iguais

Buscai em espírito a sociedade dos amigos da verdade. Alistai-vos em suas fileiras, sentai-vos fraternalmente com eles e com todos os investigadores, com todos os produtores que a cristandade reúne. A comunicação dos Santos, não é falanstério, é unidade. “A carne sozinha – de nada serve”; o espírito, só, pode alguma coisa. A unanimidade não consiste tanto em viver juntamente numa morada ou num determinado grupo, quanto em esforçar-se, cada qual, com o sentimento de que outros se esforçam, em se concentrar quando outros se concentram, de modo que se leve por diante uma tarefa, orientada por um só princípio de vida e de atividade, e que as peças do relógio, às quais cada trabalhador em seu quarto se aplica exclusivamente, tenham Deus como relojoeiro.

IV – Cultivar as relações necessárias.

  • O bem é o irmão da verdade: ajudará seu irmão. Estar onde deveríamos estar, fazer o que devemos fazer, nos dispõe para a contemplação e a alimenta; está deixando Deus para Deus, de acordo com o dito de São Bernardo (58).
  • Muita solidão te empobreceria.
  • Silêncio é o conteúdo oculto das palavras que contam. O que faz o valor de uma alma é a abundância daquilo que não expressa (61).

V. Conservar a dose necessária de ação

Em seguida, impõe-se a todo o pensador a necessidade de reservar parte do tempo e do coração para a vida ativa, por pequena que seja. O monge trabalha manualmente ou dedica-se a obras de zelo; o médico tem a, clínica, o hospital; o artista, as exposições, a sociedade, as excursões, as conferências; o escritor é solicitado de tantos lados que dificilmente conseguirá esquivar-se e meter ombros a qualquer empresa.

Continua em outra parte.

Por outro lado, a vida intelectual precisa do alimento dos fatos. Encontramo-los nos livros. Contudo é bem frágil a ciência puramente livresca. Sofre do defeito de ser abstrata; perde contato com a realidade e, por conseguinte, oferecer ao juízo matéria demasiado quintessenciada, quase ilusória. “És um balão preso à terra, dizia a si próprio Amiel, não deixe gastar-se a corda que te prende.

Quantas ideias não padecem dessa ciência puramente livresca, ao proporem conceitos totalmente utópicos e sem qualquer base na realidade?

Podemos observar esse fenômeno em diversas teorias econômicas e sociológicas que sofrem dessa síndrome. O marxismo é um exemplo claro: uma teoria que, utopicamente, poderia parecer funcional, mas que, em sua própria formulação, se mostra completamente contrária à realidade.

VI. Preservação do Silêncio Interior

  • O estado de solidão é a mãe dos resultados. O espírito do silêncio deve permear toda a vida. Deve regular a ação e os contatos externos.
  • Um intelectual deve ser um intelectual o tempo todo.
  • A solidão não é tanto de lugar como de recolhimento; significa elevar-se acima das coisas, em vez de ficar longe delas; consiste em um isolamento tendente para cima, graças à entrega do eu às coisas superiores …

4 – O Tempo do Trabalho

I  – O trabalho permanente

Todos os pecados – disseste-me – parece que estão à espera do primeiro momento de ócio. O próprio ócio já deve ser um pecado!

Quem se entrega a trabalhar por Cristo não há de ter um momento livre, porque o descanso não é não fazer nada; é distrair-se em atividades que exigem menos esforço. 357 Caminho São josemaria

Assim como a oração deve ser incessante, também assim deve ser o estudo. Diz Sertillanges:

Como a oração pode durar o tempo todo, já que é um desejo e o desejo permanece, por que o estudo não poderia durar o tempo todo, sendo também um desejo e um apelo da verdade?

Continua Sertillanges em outro trecho

Ensinam-nos a viver na presença de Deus; não podemos também viver na presença da verdade? A verdade é como a divindade especial do pensador. Certa verdade particular ou certo objeto de estudo podem estar sempre diante de nós. Seria sábio, seria normal deixar o homem de estudos no seu escritório, e ter assim duas almas: a do trabalhador e a do bon-vivant que circula? Esse dualismo não é natural; leva a pensar que a busca da verdade é para nós um ofício, e não uma nobre paixão. Há um tempo para tudo, diz a Bíblia, e eu concordo que não podemos evitar uma divisão; mas já que, de fato, pensamos o tempo todo, por que não utilizar esse pensamento em benefício daquilo que nos inquieta?

Ora, não somos nós consagrados? Um sacerdote é sacerdote apenas quando veste a batina? Um monge é monge apenas quando usa seu hábito?

Isso seria inatural. Somos consagrados.

Não veja numa cidade unicamente suas casas, mas a vida humana e a história. Que um museu não lhe apresente quadros, mas escolas de arte e vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento inspirador, dos sentimentos. Que um ateliê não lhe fale somente de ferro e de madeira, mas da condição humana, do trabalho, da economia antiga e da moderna, das relações entre as classes. Que as viagens ensinem-no sobre a humanidade; que as paisagens evoquem aos seu solhos as grandes leis do mundo; que as estrelas lhe falem das durações incomensuráveis; que os seixos da estrada sejam para você o resíduo da formação da Terra; que a visão de uma família desperte em você a visão das gerações, e que uma simples visita ensine-lhe sobre a mais alta concepção do homem. Se não conseguir ver dessa maneira, não se tornará ou não será mais que um espírito banal. Um pensador é um filtro em que a passagem das verdades deixa sua melhor substância.

E, para isso, é necessário estarmos presentes.

Quantas vezes a imagem do intelectual não é a de alguém desprendido? Aquele que, quando chamado, demora a perceber o que se passa aqui, pois está demasiado preocupado com o que acontece lá.

Mas a verdade está na presença. Estar verdadeiramente presente no mundo, atento ao clamor do gênero humano que ressoa nas ruas. Aprenda a escutar, e escute sempre, seja a quem for. Se é nos mercados, como queria Malherbe, que se aprende a própria língua, é também nos mercados, ou seja, na vida corrente, que se aprende a língua do espírito. Uma multidão de verdades circula nos mais simples discursos. Uma única palavra ouvida com atenção pode ser um oráculo. Um camponês é às vezes muito mais sábio que um filósofo.

Hugo de são victor em seu livro “Sobre o modo de aprender e estudar” diz o seguinte:

Há três coisas endereçadas ao estudante. Primeira: não tenhas como vil nenhuma ciência e nada que tenha sido escrito; segunda: não te envergonhes de aprender com qualquer pessoa; terceira: quando possuíres ciência, não desprezes quem não a tem.

“Não te envergonhes de aprender com qualquer pessoa”.

Busquemos a Verdade. Vivamos nesta presença dela. Como uma oração incessante.

II  – O Trabalho Noturno.

“Recebe-me; já lutei o suficiente contra as tuas potências; combati, em pé, teu determinismo nivelador; à equalização das forças, que é a lei deste mundo perecível, contrapus o sobressalto da vida; rendo-me, agora, até a hora de recomeçar a luta”.

Mas o próprio sono é um trabalhador, um colaborador do trabalho diurno; é possível domesticar suas forças, utilizar suas leis, aproveitar essa filtragem, essa clarificação que se opera no abandono da noite.

É necessário que o sono seja vigilante, nem em excesso, nem em falta.

Se for demasiado, embrutece, entorpece, espessa o sangue e turva o pensamento. Se for escasso, expõe-nos ao risco de prolongar e sobrepor perigosamente as excitações do trabalho.

III – As Manhãs e as Noites.

Daí a extrema importância, tanto para o trabalhador quantopara o religioso, do início e do final dos dias. Não podemos preparar, vigiar, concluir as horas de repouso com uma alma atenta se deixamos ao acaso as que lhes são contíguas. A manhã é sagrada; de manhã, a alma renovada olha para a vida como de uma curva de onde avistasse a estrada inteira. O destino está no horizonte; nossa tarefa éretomada; é o momento de avaliá-la uma vez mais e de confirmar, por um ato expresso, nossa tríplice vocação de homens, de cristãos e de intelectuais.

Sertillanges nos ensina a elevar o coração a Deus no primeiro momento de nossa manhã. Sursum Corda: Corações ao alto.

Ensinamos as crianças a “dar seu coração a Deus”; o intelectual, que nisto é uma criança, deve também dar seu coração à verdade, recordar que é seu servo, repudiar os inimigos dela que vivem em seu interior, amar, para que retornem a ela, seus inimigos externos, e consentir nos esforços que a verdade lhe pede para a jornada atual.

Se puder assistir à santa missa, se puder celebrá-la, não será arrebatado pelas amplidões que ela contém? Não verá, do alto do Calvário novamente erguido, do alto Cenáculo onde a última ceia é renovada, a humanidade reunir-se ao seu redor, essa humanidade com que você não pode perder o contato, essa vida que as palavras do Salvador iluminam, essa indigência que Sua riqueza socorre e que você deve ajudá-lo a socorrer, esclarecer, salvar, salvando assim a si mesmo? A missa coloca-o verdadeiramente num estado de eternidade, no espírito da Igreja universal, e no “Ite missa est”, você estará pronto a ver uma missão, um envio do seu zelo à desnudez da Terra ignorante e alienada.

Diz São Josemaria: “Transformar a prosa de cada dia em verso heroico.”

Devemos, logo no início do dia, nos colocar na presença d’Aquele que é a fonte de tudo.

Seja qual for sua escolha, a oração do intelectual deve sublinhar de passagem o que se relaciona com sua situação, tirar disto um proveito e compor assim o bom propósito que o trabalho cristão realiza: ato de fé nas altas verdades que sustentam a ciência; ato de esperança no socorro divino para iluminar e sustentar nas virtudes; ato de amor Àquele que é infinitamente amável e àqueles que nosso estudo quer aproximar dele; um Pai nosso, a fim de pedir junto com o pão o alimento da inteligência; uma Ave Maria, dirigida à Mulher vestida de Sol, vitoriosa contra o erro e contra o mal. Nessas fórmulas e noutras, o intelectual reencontra-se, evoca sua tarefa e, sem separar sua especialidade da vida cristã em seu conjunto, pode beneficiar-se do que está previsto para ele e providencialmente depositado no tesouro comum

Mas para isso diz Sertillanges, faz-se necessário a noite reparadora.

Um intelectual, se não tem necessidade dessa compensação, tem grande necessidade dessa calma. Seu serão deve ser um recolhimento, seu jantar uma leve refeição, sua diversão a fácil ordenação do trabalho daquele dia e a preparação do trabalho do dia seguinte. Precisa de suas completas — tomo-as aqui no sentido figurado — que completam e que inauguram; pois todo complemento de um trabalho contínuo, como o requeremos, é ao mesmo tempo um começo e um término. Fechamos para reabrir. A noite é o órgão de ligação entre os fragmentos diurnos cujo total perfaz uma vida. Pela manhã, é preciso começar logo a viver: devemos dispor-nos para isso à noite, e também preparar o sono que virá unificar, à sua maneira, os labores conscientes.

IV  – Os momentos de plenitude.

Chegamos agora ao que não é mais preparação, prolongamento, descontração utilitária, repouso que visa o trabalho, mas trabalho propriamente dito e tempo consagrado à concentração estudiosa, ao esforço pleno. Por isso chamaremos esses ápices de nossa vida intelectual considerada sob o aspecto de sua duração de “os momentos de plenitude”.

Neste capítulo, Sertillanges nos fala propriamente sobre o momento do estudo, sobre o instante em que exercitamos a vida intelectual.

Elas terão lugar pela manhã, à noite, um pouco pela manhã e outro pouco à noite? Somente você pode decidi-lo, pois somente você conhece suas obrigações e sua natureza, das quais depende a estrutura que devem ter suas jornadas.

Ou seja, cada um conhece o horário que melhor se adequa à vida intelectual. Eu, por exemplo, prefiro as manhãs. Como diz Sertillanges:

Quando alguém só dispõe de poucas horas e elas podem ser livremente dispostas, parece que a manhã deve ter a preferência. O sono reparou suas forças; a oração deu-lheasas; a paz reina ao seu redor e o enxame das distrações ainda não começou

No entanto, eu, como muitos de nós, não tenho as manhãs livres para os exercícios intelectuais e, por isso, devo me dedicar ao estudo noturno.

Uma vez escolhido o horário de estudo, ele deve ser integralmente dedicado a essa finalidade.

Sertillanges adverte:

Não imite aqueles que ficam um longo tempo diante da escrivaninha com a atenção frouxa. É melhor restringir o tempo e usá-lo em profundidade, aumentando seu valor, que é o que importa. Faça alguma coisa ou então não faça nada. O que decidir fazer, faça-o ardentemente, com afinco, de modo que o conjunto da sua atividade seja uma série de vigorosas retomadas. O trabalho pela metade, que é um repouso pela metade, não favorece nem o repouso nem o estudo.

Ao refletirmos sobre o nosso tempo atual, quantas vezes não estudamos com o celular por perto? A cada notificação, viramos o rosto para ver de onde vem a nova notícia.

Esse trabalho dedicado, é um trabalho que poderia ser realizado em duas horas, se feito com o espírito de um verdadeiro consagrado.

Abrir-se assim à verdade, abstrair-se de todo o resto, e, se me permite a expressão, comprar uma passagem para um outro mundo, é o verdadeiro trabalho. É disso que falamos quando dizemos que duas horas por dia bastam para uma obra. Evidentemente é pouco, mas preenchidas todas as condições, isso de fato basta e vale mais que as pretensas quinze horas de que tantos tagarelas se vangloriam.

5 – O Campo do Trabalho

Neste quinto capítulo Sertillanges nos diz:

Não se pode dar conselhos muito específicos sobre o que convém aprender, e menos ainda sobre a dosagem dos elementos que devem ser incluídos em um plano de trabalho. São Tomás não faz nenhuma menção a isso nos dezesseis preceitos. Na verdade, é uma questão relacionada à vocação pessoal, em estreita dependência do objetivo almejado. Entretanto, algumas indicações são possíveis, e dá-las pode servir de ponto de partida para proveitosas reflexões.

Este é um capítulo que acredito que cada um de vós deva ler, mas não no mesmo sentido em que o recomendo aos outros. Como Sertillanges diz, trata-se de uma questão de vocação pessoal. Por isso, vou apenas dar uma pincelada sobre o capítulo, trazendo um pouco sobre os temas abordados pelo escritor.

I – A Ciência Comparada

Entendemos por ciência comparada a ampliação das especialidades pela aproximação de todas as disciplinas conexas a elas, e em seguida a relação dessas especialidades e de seu conjunto com a filosofia geral e com a teologia.

Pode-se estudar uma peça de relojoaria sem considerar suas peças vizinhas? Pode-se estudar um órgão sem preocupar-se com o corpo? Também não se pode avançar em física ou em química sem as matemáticas, em astronomia sem mecânica e sem geologia, em moral sem psicologia, em psicologia sem as ciências naturais, em nada sem a história. Tudo se relaciona; as luzes intercruzam-se, e um tratado inteligente de cada uma das ciências faz mais ou menos alusões a todas as outras.

II – O Tomismo, quadro ideal do saber

A Igreja crê hoje, como desde o primeiro momento, que o tomismo é uma arca salvífica, capaz de manter flutuando os espíritos no meio do dilúvio das doutrinas. Ela não o confunde com a fé, nem com a ciência em toda sua amplitude; ela sabe que ele é falível e que participou, naquilo que é teoria transitória, dos erros do seu tempo; mas ela estima que sua estrutura corresponde em seu conjunto à constituição da realidade e da inteligência, e constata que a ciência e a fé podem nele convergir, pois que ele mesmo instalou-se entre elas como um castelo num cruzamento de estradas

III  – A especialidade

A mente enciclopédica é inimiga do conhecimento. O verdadeiro conhecimento está em profundidade e não em extensão superficial. A ciência é conhecimento através de causas, e as causas se aprofundam como raízes. Devemos sempre sacrificar a extensão à penetração.

Esse trecho nos recorda aquele dito por Sertillanges logo no começo de seu livro:

Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas, nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos.

IV  – Sacrifícios Necessários

Tudo é interessante; tudo poderia ser útil; tudo atrai e seduz o espírito generoso; mas existe a morte, existem as necessidades do espírito e das coisas: é preciso submeterse e contentar-se, em relação ao que o tempo e a sabedoria nos furtam, com um olhar de simpatia que será também uma homenagem à verdade. Não tenha vergonha de ignorar o que só poderia saber pagando o preço da dispersão. Reconheça-o com humildade, pois é um sinal dos nossos limites; mas nossos limites, uma vez aceitos, tornam-se parte da nossa virtude; uma grande dignidade advém disso: a do homem que vive sob sua própria lei e que cumpre seu papel. Somos pouca coisa, mas fazemos parte de um todo, e isso é nossa honra. Aquilo que não fazemos, nós também o fazemos: Deus o faz, nossos irmãos o fazem, e estamos com eles na unidade do amor.

6 – O Espírito de Trabalho

I – O Fervor da Investigação

Possuir o ardor da investigação, mas de forma moderada. Buscar sempre a virtude da estudiosidade, que regula, na alma humana, o desejo de aprender e conhecer. Ela se opõe ao vício da curiosidade, que é um desejo desordenado de saber aquilo que não nos diz respeito ou que pode ser ocasião de pecado para nós.

O autêntico pensador aplica-se ao trabalho com disposições diferentes; empolga-o o instinto de conquistador, um ardor, um entusiasmo, uma inspiração heroica. O herói não se fixa nem se limita. Um Guynemer.

É preciso buscar sempre, sempre esforçar-se. Obedecendo à leis da natureza, a árvore silvestre floresce, os astros brilham, a água corre, galgando as encostas, torneando os obstáculos, enchendo os vácuos, ambicionando entrar no mar que por ela espera lá em baixo, aonde talvez chegará. A criação, em todos os andares, é aspiração contínua: o espírito, que é, em potência, todas as coisas, não pode circunscrever por si as suas formas ideais, como nem as formas naturais que naquelas se refletem. A morte o limitará, e também a sua impotência: tenha, ao menos, a coragem de fugir das fronteiras da preguiça.

O infinito, que se desdobra diante de nós, requer o infinito do desejo para corrigir, na medida do possível o desfalecimento da nossa força.

II – A concentração

Os vaivéns nunca triunfaram. O viajante, que tateia e envereda sucessivamente por caminhos diversos, esfalfa-se, desanima, não avança. Pelo contrário, a tenacidade em trilhar o mesmo caminho e a persistência em o retomar, seguidas de repousos oportunos, isto é, depois de completa a primeira fase da ação, é o meio de produzir ao máximo e ao mesmo tempo de guardar o frescor do pensamento e a coragem intacta. A alma do verdadeiro trabalhador, a despeito das suas preocupações e multiplicidade sucessiva, deveria sempre, entre duas reflexões sobre o obstáculo, manter-se sossegada e nobre como a assembleia das nuvens na fímbria do Horizonte.

O espírito do trabalhador é um espírito de concentração. Não é dado ao homem intelectual ficar viajando, mudando de áreas de trabalho. Um espírito enciclopédico, diz Sertillanges, é contrário à vida intelectual. São Josemaria diz:

“Non multa, sed multum”*.

(*) “Não muitas coisas, mas muito”, em profundidade

Concentrar na verdade e sermos submetidos a ela.

III – A Submissão a verdade

Obediência pronta requer de nós a verdade. Levemos a esta solene entrevista uma alma respeitadora. A verdade só se entrega a quem primeiro se despoja e se decide a contentar-se exclusivamente com ela. A inteligência, que se não dá, vive em estado de cepticismo e o céptico encontra-se pouco armado para a verdade. A descoberta é o resultado da simpatia, e quem diz simpatia diz dom.

Cedendo à verdade e exprimindo-a o melhor possível, sem alteração criminosa, praticamos um culto ao qual o Deus interior e o Deus universal responderão, revelando a sua unidade e estabelecendo sociedade com a nossa alma. Nisto como em todo o mais, o inimigo de Deus é a vontade própria.

A submissão à verdade deve ser feita de forma completa. No Evangelho de Mateus, há um versículo que diz.

24. “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

Devemos nos entregar inteiramente a esse bom Senhor.

Sertillanges comenta sobre isso quando diz:

Poder-se-ia definir o estudo, dizendo: é Deus que toma, em nós, consciência da sua obra. Como toda ação, a intelecção vai de Deus a Deus através de nós, Deus é a causa primeira e o fim último da intelecção: na passagem, o nosso eu, com suas loucas pretensões, pode apartá-la dessa direção. Abramos antes os olhos com humildade para que o nosso Espírito inspirador veja.

Afinal, o intelecto é potência passiva; a nossa força intelectual é proporcional à nossa receptividade. Não quero dizer que não haja motivo para reagir; mas a reação vital não deve mudar o teor das aquisições, visto que só as faz nossas. Uma grande cultura que tome posse de um espírito, cria nele novos estímulos e aumenta-lhe a capacidade; mas, sem humildade, esta atração, exercida de fora, converte-se em manancial de mentiras. Pelo contrário, a um espírito culto e humilde as luzes acodem de todas as partes e apegam-se a ele como a aurora se apega aos cumes das montanhas.

IV – Alargamentos

Devemos ser submissos a essa verdade, que é Una. Diz Sertillanges:

A verdade é una; tudo depende da Verdade suprema; entre um objeto particular e Deus interpõem-se as leis do mundo, cuja amplidão vai crescendo desde a norma aplicada a esse objeto até ao Axioma eterno. Mas o espírito do homem também é uno e não pode satisfazer-se com a mentira das especialidades consideradas como divisão da verdade e da beleza em frações esparsas. Por mais restrita que seja a pesquisa, e exíguo o caso que vos retém, estão realmente em jogo o homem e o universo. Sujeito e objeto visam, ambos, o universal.

Estudar uma coisa é evocar gradualmente o sentimento de todas as outras e da sua solidariedade, é imiscuir-se no concerto dos seres, é unir-se ao universo e a si próprio.

IV – O Senso do Mistério

Um caráter nobre sabe que as nossas luzes são apenas degraus de sombra por onde ascendemos à claridade inacessível. Balbuciamos e o enigma do mundo é perfeito. Estudar é precisar algumas condições, classificar alguns fatos: só estuda a valer quem põe este pouco debaixo dos auspícios do que ainda ignora. Isso não é colocá-lo na obscuridade, porque a luz, que se não vê, a que melhor sustém os reflexos da nossa noite astral.

7 – A preparação do trabalho

Eis aqui um dos capítulos mais importantes de todo o livro.

A – A Leitura

1 – Ler Pouco

Sempre que vejo esses grandes homens comentando sobre a leitura, me vem à mente o grande professor Olavo, que tem um vídeo sobre a questão da leitura:

Ir em uma aparente contramão daquilo que imaginamos ser uma vida intelectual, Sertillanges recomenda a leitura pouca, leitura a dedo. E classifica a ‘paixão por ler’ como uma paixão semelhante às outras.

Proscrevemos, sim, a paixão de ler, a ânsia, a intoxicação por excesso de nutrição espiritual, a preguiça disfarçada que prefere ao esforço a frequentação fácil. A ‘paixão’ da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma, retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias.

Continua em outra parte:

A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e concentração e, por conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por comentários, por capítulos, por tomos.

Na contramão, diz Sertillanges:

Ide antes dar um passeio, ler no livro imenso da natureza, respirar o ar fresco, distrair-vos. Depois da atividade tomada voluntariamente, organizai a distração voluntária, em vez de vos entregardes a um automatismo que de intelectual só tem a matéria, mas que em si é tão banal como o escorregar por uma encosta ou o escalar uma montanha.

2 – Escolher

Livros. Não os compres sem te aconselhares com pessoas cristãs, doutas e prudentes. – Poderias comprar uma coisa inútil ou prejudicial.

Quantas vezes julgam levar debaixo do braço um livro… e levam um montão de lixo! – São Josemaria Escrivá

Frequentar apenas o escol dos pensadores. O que nem sempre é possível em matéria de relações pessoais, é fácil, e convém aproveitar, em matéria de leituras. Admirar de alma e coração o que merece ser admirado, sem contudo prodigar a admiração. Desdenhar das obras mal feitas, que provavelmente são mal pensadas.

Ler só obras de primeira mão, onde brilham as ideias mestras. Ora estas são pouco numerosas. Os livros repetem-se, diluem-se, ou então contradizem-se, o que é outra maneira de se repetirem. Olhando de perto, verificamos serem raras as descobertas do pensamento; o fundo antigo, ou antes o fundo permanente é o melhor; é mister que nele nos apoiemos para comungar verdadeiramente com a inteligência do homem, longe das pequenas individualidades balbuciantes ou bulhentas.

Haveis de ler, sem prevenção, o que se escreve de bem; lereis os autores modernos, e tanto mais quanto precisardes de informações, de noções positivas em evolução ou em crescimento; quereis ser do vosso tempo; não deveis ser um ‘tipo arcaico’. Contudo, não tenhais a superstição da novidade; gostai dos livros eternos, que encerram as verdades eternas.

3 – Os 4 tipos de leituras

Concretizando um pouco mais, distingo quatro espécies de leitura: Lemos para nos formarmos e ser alguém; lemos com a mira nalgum fim particular; lemos para nos animarmos a trabalhar e praticar o bem; lemos por motivo de distração. Há leituras de fundo, leituras de ocasião, leituras de estímulo ou de edificação, leituras de repouso.

  • Leitura fundamental – exige docilidade. ‘Você deve acreditar em seu mestre’ – Aquino. Escolha 3 ou 4 autores formativos.
  • Leitura acidental – exige domínio mental
  • Estimulando a leitura – exige seriedade. Tenha uma lista de autores, livros, páginas, citações, etc.
  • Leitura recreativa – exige liberdade. Uma coisa sozinha, de acordo com São Tomás, dá descanso real: alegria; Procurar distração em algo chato seria uma ilusão. 4 – O trato com o gênio Quero agora falar expressamente da maneira de aproveitar o convívio com os grandes homens, pela importância que reveste para a conduta do espírito e da vida. O convívio com os gênios é uma das graças de predileção que Deus concede aos pensadores modestos; deveríamos preparar-nos para ela pela oração, como a Escritura recomenda, do mesmo modo que nos recolhermos e nos pomos em estado de recolhimento quando nos abeiramos de uma grande personagem ou dum Santo!

Continua em outro trecho:

O contato com os gênios traz, como benefício imediato, a elevação; só pelo fato da sua superioridade, gratificam-nos, mesmo antes de nos ensinarem qualquer coisa. Dão-nos o tom; habituam-nos ao ar das montanhas. Movíamo-nos em região baixa: dum golpe, erguem-nos à sua atmosfera. Neste mundo de pensamento sublime, parece que se desvenda o rosto da verdade; fulgura a beleza; o fato de seguir e de compreender estes videntes leva-nos a pensar que somos da mesma raça que reside em nós a Alma universal, a Alma das almas, o Espírito, que só espera que nos adaptemos a Ele para desabrochar em discursos divinais, pois que, no manancial de toda a inspiração, sempre profética, há

5 – Conciliar em vez de opor

  • Precisamos sempre reconciliar nossos autores em vez de definir um contra o outro.
  • Não são os pensamentos, mas as verdades que nos interessam. É inútil permanecer indefinidamente sobre as diferenças; a pesquisa frutífera é procurar pontos de contato. Aqui St. Thomas nos dá um exemplo admirável. Ele sempre tentou comparar doutrinas, para ilustrá-las e completá-las uma pela outra.

6 – Assimilar e Viver

Ainda uma derradeira e capital indicação sobre as leituras. Embora o leitor deva mostrar certa passividade que não tolha a ação da verdade em seu espírito, precisa, no entanto, de reagir sobre o que lê para o fazer seu. Lemos para pensar, enriquecemo-nos para utilizar, alimentamo-nos para viver!

Condenámos o eterno ledor, que pouco a pouco chega a ler maquinalmente, a um automatismo que já não é trabalho. Mas nem só os que muito leem correm perigo de cair neste defeito. Muitos leem do mesmo modo que as senhoras fazem malha. O espírito desses ledores, tomado de insolência, assiste inerte ao desfile das ideias;

  • Passivo – o leitor deve ser passivo para abrir sua mente para a verdade. A docilidade é louvável e necessária, mas não é suficiente. Um homem que está sempre ouvindo pode nunca aprender, a menos que ele mude para sua própria substância o que ouviu em seu dócil relacionamento com os outros.
  • Ativo – o leitor deve reagir ao que lê de modo a torná-lo seu e por meio dele formar sua alma. Nós lemos apenas para pensar, nós adquirimos riqueza para usá-la, nós comemos para viver. Ninguém pode nos ensinar sem nosso próprio esforço. A leitura coloca a verdade diante de nós; nós temos que fazer o nosso. Ninguém pode fazer a jornada para a verdade para nós. Nossa mente não tem a tarefa de repetir, mas de compreender – isto é, fazemos “levar com” nós, cum-prehendere, precisamos assimilar vitalmente, o que lemos, e devemos finalmente pensar por nós mesmos.

Assim como ninguém pode assimilar os conhecimentos comuns senão pelo próprio esforço, com muito maior razão a ninguém é dado produzir da sua lavra pensamento novo senão pelo próprio esforço. Quando leio, quereria encontrar no livro um ponto de partida sugestivo, mas quereria ao mesmo tempo deixá-lo, liberta-me com o sentimento de uma dívida. Tenho o dever de ser eu próprio. Para quê repetir outrem?

Por pequeno que eu seja, sei que Deus não cria em vão nenhum espírito, como nem qualquer outra coisa da natureza. Libertando-me, obedeço ao meu Mestre. Vivo, não sou um reflexo, e quero uma vida fecunda. O que não gera não é: oxalá a leitura me permita gerar pensamento, à semelhança, não do meu primeiro inspirador, mas de mim próprio!

B – A Organização da Memória

I – Que se deve reter

O livro é escrito baseado nos 16 conselhos de Santo Tomás, dentre os quais um deles é:

‘Arquiva no escrínio do espírito tudo o que puderes, como quem quer encher um vaso’. Mas para compreender o significado desta máxima, precisamos de subentender alguma coisa. Arquivemos, sim, o que pudermos, com a condição, porém, de que seja útil, como debaixo da mesma reserva lemos tudo o que podemos.

Sertillanges segue em outro parágrafo nos dizendo o que devemos reter:

Arquivai o que possa ajudar a conceber ou a executar, o que possa assimilar-se à vossa alma, responder ao vosso fim, vivificar a vossa inspiração e suster a vossa obra. O resto, esquecei-o.

Diz Sertillanges que a memória é nosso primeiro reflexo para as coisas, é aquilo que

primeiro nos auxilia frente a uma situação.

Sertillanges nos aconselha a decorar coisas que nos elevem:

Nicole sugere ao cristão que ‘aprenda de cor alguns salmos e sentenças da Sagrada Escritura, a fim de santificar a memória'[68] É uma maneira de consagrar a nossa comum vocação celestial e de facilitar o esforço para o bem. Poucos são os que hoje compreendem tais conselhos. Há quem seja capaz de declamar trechos de Vergílio, de Racine, de Musset e que se veria em sérios apuros para recitar um salmo, ou rezar o Angelus, a Salve Rainha, o Te Deum, o Magnificat. Há nisso evidentemente desordem. O que se grava no espírito por meio da memória opera nele mais intensamente; um católico deve desejar que esta ação se efetue no máximo grau, quando dela resulta estímulo para a sua fé. Ser-lhe-ia de grande proveito repetir, de si para consigo, de quando em quando no decurso do dia, algumas fórmulas cheias de seiva cristã.

II – Por que ordem reter

Diz sertillanges:

Há, em cada matéria, certas ideias dominantes, que são chaves universais; há-as que também governam a vida, e é diante delas que se deve acender, dentro dos corações, a lâmpada do santuário. A faculdade criadora depende, em grande parte, da sabedoria e da sobriedade da memória. O aferrar-se ao essencial mantém abertas para fora todas as perspectivas, e a lógica do adquirido tende a prolongar-se em novas contribuições.

III – Como reter

São quatro as regras propostas por Santo Tomás: 1ª ordenar o que se quer reter; 2ª aplicar a isso o espírito; 3ª meditar nisso com frequência; 4ª no ato de reminiscência, tomar pela extremidade a cadeia das dependências, que o resto seguir-se-lhe-á.

Além disso, Sertillanges prossegue em outro trecho, destacando a importância de meditar e expressar as ideias “com palavras próprias”, por assim dizer, reconstruindo o pensamento. Isso pode ser feito tanto ao explicar para alguém quanto ao refletir para si mesmo.

Se quereis reter, atendei às ligações e às razões das coisas; analisai, procurai os porquês, observai a genealogia dos acontecimentos, as sucessões e dependências, imitai a ordem matemática, onde a necessidade, partindo do axioma, chega às mais longínquas conclusões. Compreender a fundo, aprender em seguida e introduzir no espírito, não anéis a esmo, mas uma corrente, é assegurar a coesão do todo. A união faz a força.

A aplicação do espírito, que a seguir se recomenda, tem por fim reforçar o misterioso buril que traça em nós a figura das palavras e das coisas. Quanto mais ardente for a atenção, mais o buril cava e melhor os sulcos resistirão ao fluxo permanente que tende a substituir as ideias como a morte substitui os seres. Quando ledes ou escutais com o intuito de aprender, concentrai-vos e estai presentes a vós próprios; repeti no íntimo, como que em voz alta, o que se vos diz; martelai-o em sílabas, de sorte que possais repetir o que lestes ou ouvistes, pela ordem com que o fixastes. Tratando-se dum livro, não o fecheis sem que o possais resumir e apreciar. Digo isto, porque o objeto, que provocou intervenção ativa da nossa parte, foge mais dificilmente; fica, por assim dizer, agarrado à pessoa.

Em resumo, o que importa à memória, não é tanto o número das aquisições, quanto, primeiramente a sua qualidade, em seguida a sua ordem e finalmente a habilidade do seu emprego. Os materiais não faltam ao pensamento, é o pensamento que falta aos materiais.

Aprender não é nada, sem a assimilação da inteligência, sem a penetração, sem o encadeamento, sem a progressiva unidade de uma alma rica e regulada. O interessante não é a oficina, é a arquitetura, é sobretudo o espírito do habitante. Tende a inspiração elevada, a atenção ardente, a emoção em face da verdade, o zelo da investigação, e nunca haveis de carecer de recordações.

C – As notas

I – Como tomar notas

Ai de nós, se tivéssemos de nos fiar na memória para guardar intacto e prestes a servir o que encontramos ou descobrimos no decurso da vida de estudo. A memória é infiel; perde, enterra, quase que não obedece ao apelo. Opomo-nos a que a sobrecarreguem e a que se atrapalhe o espírito; preferimos a liberdade da alma a uma abundância indigesta. A solução é o caderno de notas ou o ficheiro.

Para encontrar no momento oportuno a lembrança desejada, seria preciso um domínio de si próprio que nenhum mortal possui.

No entanto, as notas devem ser precisas, sem exageros, comenta Sertillanges: Há pessoas que possuem cadernos tão recheados e tão numerosos, que uma espécie de desânimo antecipado os impede de os abrir.

Deste modo, pode-se acabar uma obra sem a começar; as notas determinam-lhe o valor, pois já se esboça nelas o plano em estado latente, um plano de gaveta.

Deve-se tomar notas de forma comedida, buscando como quem observa apenas o que precisa.

II –  Como classificar as notas

É bom guardar o rasto das leituras e das reflexões e copiar documentos, com a condição de poderdes folhear,

Desconfiai da mania de coleccionar, que frequentemente se apossa dos que tomam notas. Querem encher cadernos ou ficheiros, dão-se pressa em preencher os vácuos, e empilham textos com o mesmo afã com que se recheiam álbuns de selos ou de postais ilustrados. É prática detestável; recai-se assim na puerilidade; corre-se o risco de vir a ser maníaco. A ordem é uma necessidade; mas é ela que tem de nos servir e não nós a ela.

Mas o método mais prático para a maior parte dos trabalhadores parece ser o método das fichas ou verbetes.

Um sistema muito engenhoso, chamado sistema decimal, é aplicável a todo o gênero de investigações; quem desejar informações sobre ele, leia a interessante brochura do Dr. Chavigny. A organização do trabalho intelectual.

VIII – O trabalho criador

I – Escrever

Chegou o momento de realizar. Não podemos passar a vida só a aprender e a preparar. Além de que, aprender e preparar exigem uma dose de preparação: para encontrar um caminho é preciso enveredar por ele. A vida decorre em círculo. Órgão, que se exerce, cresce e fortifica-se; órgão fortificado exerce-se mais vigorosamente. É preciso escrever ao longo da vida intelectual.

Escrevemos primeiramente para nós, para ver claro nos nossos casos, para determinar melhor os pensamentos, para suster e avivar a atenção que depressa esmorece se não for instigada pela ação, para estimular as pesquisas necessárias para levar a cabo a produção, para reanimar o esforço que se cansaria não vendo os resultados, enfim para formar o estilo e adquirir um valor que completa todos os outros valores: a arte de escrever.

Escrevemos primeiramente para nós, para ver claro nos nossos casos, para determinar melhor os pensamentos,

Escrevei e publicai, desde que juízes competentes vos julguem capazes disso e desde que vos sintais aptos para voar.

[…] voai logo que puderdes. O contacto com o público obriga o escritor a constante trabalho de aperfeiçoamento; os louvores merecidos animam-no; as críticas fiscalizam-no;

Apesar de não tomar muitas notas em minhas leituras, eu possuo o hábito de escrever. Não de forma sistemática como quem escreve para blogs e afins. Mas eu tenho um hábito de escrever pequenas e curtas homilias a respeito da liturgia do dia. Esse é um hábito que recomendo a todos, pois trás uma maior fluidez na escrita e na própria oração. Colocar as coisas em palavras torna mais concreto aquele conhecimento e certeza que temos.

Se vos sentir apto a voar, recomendo que comecem blogs próprios. Muito dessa aula que fiz aqui, além da minha leitura e interpretação, busquei em blogs.

II – Desapegar-se de si e do mundo

O estilo, e dum modo mais geral o trabalho criador, requer desapego. Afaste-se a personalidade atravancadora e esqueça-se o mundo. Quem pensa na verdade, não pode deixar-se distrair por si próprio. Que esperar no homem que para em si? Eu espero naquele que se atira, longe da personalidade efêmera, para o imenso e o universal, que caminha, astrónomo, em companhia dos astros, poeta, filósofo, teólogo, em companhia da matéria animada ou inanimada, em companhia da humanidade individual e social, em companhia das almas, dos anjos e de Deus. Creio nesse, porque nele habita o espírito de verdade, e não preocupações mesquinhas.

Não basta trabalhar só no domínio do pensamento: é preciso que o homem todo trabalhe. Mas o homem, que se introduz no trabalho, não deve– ser o homem de paixão, o homem de vaidade, o homem de ambição ou de vã complacência. Todos os homens se apaixonam em determinados momentos, mas a paixão nunca deve ser senhora absoluta. Todos estão expostos à vaidade, mas o mal está em o trabalho ser vaidade.

Para mim, viver, é Cristo¹, diz S. Paulo: eis aí uma vocação e uma certeza de acção vitoriosa. Só é verdadeiramente intelectual quem pode afirmar: Para mim, viver, é a verdade!

IV – Fazer tudo bem feito e até ao fim

Não rematar uma obra é destrui–la. “Quem fraqueja no decurso duma obra é irmão daquele que destrói o que fez”, lemos nos Provérbios (18, 9).Não rematar uma obra é destrui–la. “Quem fraqueja no decurso duma obra é irmão daquele que destrói o que fez”, lemos nos Provérbios (18, 9).

Ter uma vocação é ter a obrigação do perfeito.

Devemos colocar nosso melhor no momento da criação.

IX – o trabalho e o homem

I – Guardar o contacto com a vida

O estudo deve ser acto de vida, deve ser útil à vida, deve sentir-se impregnado de vida. No saber, tudo é esboço: concluída a obra, temos o homem. É preciso ser sempre mais do que se é: o filósofo deve ser um pouco poeta; o poeta, um pouco filósofo; o artista deve ser poeta e filósofo de vez em quando, e o povo até gosta disso. Quem só pensa no seu trabalho, trabalha mal; diminuiu-se; toma um vinco profissional, que se converterá em tara. Encontraria eu a Deus no meu quarto, se nunca fosse à igreja nem olhasse para o céu que “canta a sua glória”? Filosofia, arte, viagens, cuidados domésticos, finanças, poesia e ténis, formam alianças e não se contradizem senão pela harmonia.

II – Saber distrair-se

Cortem-se os excessos. O trabalho, precisamente porque é dever, exige limites que o mantenham em vigor e duração e lhe procurem, no decurso da vida, a maior soma de efeitos de que é capaz. A intemperança é pecado porque nos destrói, […] “estudar tempo de mais é uma maneira de preguiça”. É preguiça directamente, por ser incapacidade de dominar um determinismo, de manejar um freio. É preguiça indirectamente, porque recusar um repouso é recusar implicitamente um esforço que o repouso permitiria e que o excesso de cansaço compromete. O melhor meio de repousar seria ainda, se possível fosse, não se cansar, quero dizer, equilibrar o trabalho de maneira que uma operação servisse de descanso a outra. Em suma: sem verdadeiro repouso, não há verdadeiro trabalho, reina a desordem. Os jogos, as conversações familiares, a amizade, a vida de família, as leituras distractivas nas condições apontadas, a vizinhança da natureza, a Arte fácil, um trabalho manual muito suave, o divagar inteligente através duma cidade, os espectáculos pouco fortes e pouco apaixonados, Os desportos modernos: tais são os elementos de repouso.

III – Aceitar as provações

É pueril querer defender as próprias obras ou estabelecer o valor delas. O valor defende-se a si próprio. Calai-vos; humilhai-vos diante de Deus; desconfiai do vosso juízo e corrigi as vossas faltas; Se a crítica for justa, haveis de resistir à verdade?

IV – Saborear as alegrias

O intelectual cristão escolheu a renúncia, mas a renúncia enriquece-o mais do que a altiva opulência. A recompensa duma obra é o concluí-la; a recompensa do esforço é o ter crescido. O intelectual é jovem até ao fim. Dir-se-ia que participa da eterna juventude da verdade. Amadurece geralmente muito cedo, mas conserva-se ainda na pujança de vida quando a eternidade o vem recolher.

V – Gozar antecipadamente os frutos

O verdadeiro intelectual não teme a esterilidade, a inutilidade; basta que a árvore seja árvore para produzir frutos. Os resultados chegam por vezes tarde, mas chegam sempre; Cada indivíduo é único: portanto cada fruto do espírito será também único: O único é sempre precioso, sempre necessário.

Páginas: 1 2

Uma resposta para “A Vida Intelectual: seu Espírito, Suas Condições, Seus Métodos – Comentários sobre a obra.”.

  1. Avatar de Emily Brandão

    Esse livro é fantástico, nos trás para nossa própria realidade dentro do nosso cotidiano, com certeza um dia meus favoritos!!!

    Curtir

Deixe um comentário